O streaming ampliou a oferta de música, filmes e séries sem que fosse necessário sair de casa. Isso não impediu que mais brasileiros participassem de experiências culturais presenciais. A sétima edição da pesquisa Hábitos Culturais, do Observatório Fundação Itaú, com apoio técnico do Datafolha, aponta que 88% dos entrevistados realizaram pelo menos uma atividade cultural presencial nos 12 meses anteriores ao levantamento. Em 2025, eram 84%.
O movimento não representa uma troca simples das telas pelas ruas. O consumo digital continua difundido. O que os números mostram é uma convivência entre formatos, com avanços importantes em shows, centros culturais e museus — e diferenças persistentes no acesso.
Onde a participação mais cresceu?
Os shows musicais passaram de 45% para 51% dos entrevistados. A presença em centros culturais avançou de 26% para 32%; em museus, de 16% para 21%; e em exposições de arte, de 27% para 31%. São diferenças em pontos percentuais, não taxas de crescimento do público total.
Atividades ao ar livre em espaços públicos continuam entre as experiências mais comuns. A pesquisa também aponta que 59% dos entrevistados realizam ao menos uma atividade cultural presencial por mês. Esses números ajudam a observar a intensidade da participação, mas não demonstram, isoladamente, por que ela cresceu.
O digital não desapareceu — e não precisa desaparecer
No mesmo levantamento, 85% relataram ouvir música online. O consumo digital de filmes e séries também permanece amplamente disseminado. É possível descobrir um artista na internet, acompanhar seu trabalho por meses e decidir assistir a um show presencial. Da mesma forma, uma visita a museu pode continuar depois em vídeos, acervos digitais e conteúdos educativos.
Essa articulação sugere uma pergunta mais produtiva do que opor experiências presenciais e plataformas: como diferentes meios podem ampliar a descoberta e o acesso à cultura? O levantamento mede hábitos declarados; não testa uma relação causal direta entre usar streaming e frequentar espaços culturais.
O obstáculo que os números gerais escondem
A participação cultural não é distribuída de modo uniforme. Segundo a pesquisa, 97% dos entrevistados das classes A/B relataram alguma atividade cultural presencial, diante de 82% nas classes D/E. As diferenças também aparecem ao examinar práticas específicas, como ir ao cinema ou ao teatro.
Entre as barreiras mencionadas estão o custo (35%) e a insegurança (30%). Não basta existir uma programação interessante: deslocamento, preço, segurança, informação e oferta próxima de casa afetam a possibilidade de participar.
Outro dado oferece uma pista para políticas e iniciativas culturais: 72% declararam que participariam mais se atividades culturais ocorressem com frequência em escolas de seus bairros. A resposta expressa uma intenção, não uma garantia de participação futura, mas revela a relevância da proximidade.
O que significa 'voltar' à cultura presencial?
O termo “volta” funciona como manchete, mas exige cuidado. A comparação é entre resultados de edições sucessivas da pesquisa, com base em respostas sobre os 12 meses anteriores. Ela descreve uma elevação observada no indicador, não prova que todos os brasileiros tenham abandonado espaços culturais e depois retornado a eles.
Também é preciso delimitar a população estudada: foram entrevistadas 2.448 pessoas de 16 a 65 anos em 137 municípios, entre 7 e 20 de julho de 2026. Os resultados devem ser lidos dentro desse recorte metodológico.
Uma cultura feita de telas, encontros e oportunidades
Os dados mostram duas realidades simultâneas. A primeira é o interesse expressivo por atividades presenciais, especialmente shows e espaços culturais. A segunda é que o ambiente digital continua fazendo parte da rotina cultural.
O desafio, portanto, não é escolher entre streaming e vida cultural fora de casa. É compreender como ampliar as possibilidades de encontro com a arte e reduzir as barreiras que deixam parte do público de fora. A melhor leitura da pesquisa talvez seja esta: o interesse existe; o acesso ainda importa muito.
Fontes e metodologia
Fundação Itaú — Quase 90% dos brasileiros frequentam atividades culturais presenciais (14/10/2026); Folha de S.Paulo — cobertura da 7ª edição da pesquisa Hábitos Culturais. Indicadores referentes a entrevistas presenciais realizadas entre 7 e 20 de julho de 2026 com pessoas de 16 a 65 anos.
