Natureza · Biodiversidade

Mexilhão-dourado avança mil quilômetros no rio São Francisco: como chegou lá?

Pesquisa identificou 113 mexilhões-dourados no Norte de Minas, cerca de mil quilômetros do registro anterior na bacia. Entenda o risco e as hipóteses.

Exemplares de mexilhão-dourado (Limnoperna fortunei) fotografados em 2017; imagem de referência da espécie, não dos animais coletados no rio São Francisco.
Espécie Limnoperna fortunei, fotografia de Boltovskoy (2017), Wikimedia Commons, CC BY-SA 4.0. Imagem de referência, não dos espécimes desta pesquisa.

É pequeno, vive na água doce e pode se fixar em superfícies submersas. Mas o mexilhão-dourado (Limnoperna fortunei) tornou-se uma preocupação ambiental em rios brasileiros. Uma pesquisa da Universidade Estadual de Montes Claros (Unimontes) confirmou sua presença em um trecho do rio São Francisco, no Norte de Minas Gerais, cerca de mil quilômetros a montante de um registro anterior conhecido na bacia. A distância surpreende — e a pergunta é direta: como esse molusco foi parar ali?

O que os pesquisadores encontraram?

Em cinco viagens de campo, realizadas entre julho de 2024 e abril de 2025, a equipe investigou 16 estações em quatro municípios mineiros: São Francisco, São Romão, Ibiaí e Pirapora. Foram coletados 113 exemplares nas estações positivas, localizadas em São Francisco e São Romão. O trabalho foi publicado em 2026 na revista científica Check List e divulgado pela Unimontes em 21 de outubro.

A equipe não encontrou a espécie nas estações amostradas em Ibiaí e Pirapora, nem no reservatório de Três Marias. Isso não demonstra ausência absoluta em todos esses locais: significa que o mexilhão não foi detectado nas amostragens descritas.

Mil quilômetros: o que essa distância significa?

O número não representa uma viagem individual observada pelos cientistas. É a distância aproximada entre o novo registro e uma ocorrência anterior conhecida, próxima à região do reservatório de Sobradinho, entre Bahia e Pernambuco. A pesquisa documenta uma distribuição mais ampla do que a conhecida até então, sem reconstruir diretamente o percurso feito pelos organismos.

Uma das hipóteses discutidas é a dispersão involuntária por pequenas embarcações e equipamentos que circulam entre trechos de rios. Isso ajudaria a explicar a presença da espécie em pontos distantes e separados por barreiras à dispersão natural. Mas não foi comprovado qual embarcação ou rota transportou os mexilhões.

Como um animal tão pequeno causa tanto impacto?

Nativo de regiões da Ásia, o mexilhão-dourado chegou à América do Sul por volta da década de 1990, provavelmente associado ao transporte marítimo e à água de lastro. Seus indivíduos se fixam a superfícies rígidas e podem formar aglomerados numerosos. A reprodução produz larvas que circulam na água, favorecendo a colonização de novos ambientes.

Grandes concentrações podem obstruir tubulações de captação, resfriamento e irrigação, elevar custos operacionais, danificar equipamentos e afetar a pesca. No ambiente aquático, a competição por espaço e alimento também pode alterar comunidades de espécies nativas. Esses são riscos conhecidos da espécie; não se deve concluir, apenas pela descoberta dos 113 exemplares, que todos esses danos já ocorreram no trecho estudado.

O que o estudo muda para o rio São Francisco?

O resultado amplia a área onde a espécie foi cientificamente registrada e reforça a importância de monitorar não apenas reservatórios, mas também trechos de rio livre. Os pesquisadores defendem maior atenção à movimentação de embarcações, à limpeza de equipamentos e à detecção precoce em áreas onde o molusco ainda não foi encontrado.

Para um rio importante para abastecimento, irrigação, pesca e energia, a prevenção é particularmente relevante. Uma espécie invasora pode se espalhar antes que seus efeitos fiquem visíveis para a população.

O que ainda não sabemos?

A identificação taxonômica e a presença no trecho amostrado são resultados confirmados. A rota exata de chegada, o papel relativo das embarcações e a velocidade real de dispersão continuam em investigação. O estudo também não permite calcular sozinho o tamanho total da população no rio.

O mais surpreendente não é que um único mexilhão tenha nadado mil quilômetros contra a corrente. É que uma espécie minúscula, transportada possivelmente sem que ninguém perceba, pode superar grandes distâncias e criar novos desafios ambientais. Entender esse processo é fundamental para tentar conter a invasão.

Fontes e pesquisa original

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