Ciência · Exploração espacial

Por que uma nuvem de 1.800 km aparece e desaparece em Marte?

Observada perto do vulcão Arsia Mons, a nuvem de gelo cresce a cada manhã marciana. Um estudo de 2026 propõe uma explicação para esse fenômeno extraordinário.

Imagem orbital real da nuvem alongada de gelo de água a oeste do vulcão Arsia Mons em Marte.
Nuvem alongada próxima a Arsia Mons em fotografia da Mars Express realizada em 24 de junho de 2024 e divulgada pela ESA em outubro de 2026. Crédito: ESA/DLR/FU Berlin. Licença CC BY-SA 3.0 IGO ou ESA Standard Licence. Imagem original e condições de uso.

Na superfície de Marte, um fenômeno tão extenso quanto surpreendente se repete em determinadas épocas do ano. Uma nuvem de gelo de água começa a se formar nas proximidades de um vulcão gigantesco, cresce rapidamente durante a manhã e se prolonga por centenas — às vezes até 1.800 quilômetros — antes de desaparecer. Não é fumaça, não é uma erupção vulcânica e tampouco é uma imagem criada por inteligência artificial.

A estrutura recebeu o nome de Arsia Mons Elongated Cloud (AMEC). Astrônomos já a observavam há anos. O fato novo, divulgado pela Agência Espacial Europeia (ESA) em outubro de 2026, é uma hipótese física capaz de ajudar a explicar como essa nuvem nasce na atmosfera extremamente rarefeita de Marte.

Uma nuvem quase duas vezes mais longa que o Reino Unido

A AMEC surge a sotavento de Arsia Mons, um vulcão extinto com aproximadamente 20 quilômetros de altura. A missão Mars Express acompanha o fenômeno com câmeras orbitais, registrando o deslocamento e a evolução diária da faixa branca sobre o terreno avermelhado.

Uma imagem obtida em 24 de junho de 2024, divulgada pela ESA em 7 de outubro de 2026, mostra cerca de 980 quilômetros da nuvem. O limite de 1.800 quilômetros refere-se à extensão máxima observada do fenômeno em outras ocasiões. É importante não confundir o comprimento visto nessa fotografia específica com o recorde registrado para a AMEC.

Como a nuvem aparece e desaparece?

O ciclo observado começa perto do amanhecer marciano. Uma concentração de nuvens se desenvolve junto à região ocidental do vulcão. Depois do nascer do Sol, a cauda se estende rapidamente para oeste, transportada por ventos em altitude. Mais tarde, a estrutura pode se desprender de sua região de formação, tornar-se mais difusa e evaporar à medida que o ar aquece.

Essa sequência não ocorre de forma idêntica em todos os dias do ano marciano: é um fenômeno sazonal, repetido ao longo de alguns meses, com variações meteorológicas. Estudos do ciclo de vida da AMEC identificaram fases distintas de formação, expansão, desprendimento e dissipação.

O papel do vulcão não é o que parece

Embora a nuvem pareça sair do topo da montanha, Arsia Mons não está entrando em erupção. O relevo do vulcão modifica o fluxo dos ventos e favorece a elevação e o resfriamento do ar. Essa combinação pode criar condições para a formação de partículas de gelo de água em uma atmosfera com pressão muito menor que a terrestre.

O fenômeno é frequentemente associado ao efeito orográfico — a influência das montanhas sobre os movimentos atmosféricos. O desafio científico é compreender exatamente como o vapor de água se transforma em cristais nessa região e por que as simulações convencionais nem sempre reproduziam a estrutura observada.

A hipótese de 2026: gelo sem precisar de poeira?

O novo trabalho analisa uma possibilidade chamada nucleação homogênea. Normalmente, a formação de cristais em nuvens atmosféricas é favorecida por partículas que funcionam como superfícies iniciais. A nucleação homogênea considera a formação de partículas de gelo diretamente a partir do vapor, sem a necessidade dessas superfícies.

Ao incorporar esse processo em um modelo atmosférico regional, os pesquisadores obtiveram uma representação mais próxima do comportamento da nuvem. Isso indica que a hipótese pode ser importante para a física da atmosfera de Marte, mas não constitui uma observação direta de cada cristal se formando. O mecanismo ainda precisa ser testado com mais dados e comparações.

O que essa nuvem revela sobre Marte?

O interesse científico vai além da beleza da imagem. Para interpretar a história climática marciana e projetar missões futuras, é necessário compreender como água, poeira, temperatura e ventos interagem na atmosfera. Uma nuvem recorrente, extensa e localizada oferece um teste rigoroso para modelos que simulam essas relações.

Há também uma lição sobre a diferença entre fotografar e explicar: a existência da nuvem é observada; o mecanismo detalhado proposto no estudo de 2026 ainda é uma interpretação científica. A hipótese é relevante justamente porque pode ser confrontada com o que os instrumentos registram.

Uma paisagem verdadeira, ainda cheia de perguntas

Marte não tem nuvens de água líquida como as chuvas comuns da Terra, mas pode apresentar nuvens de gelo de água. A AMEC é um exemplo espetacular: nasce junto a um vulcão extinto, estende-se por distâncias continentais e desaparece poucas horas depois. Entender esse ciclo ajuda a construir uma imagem mais precisa de um planeta que continua meteorologicamente ativo, mesmo sem oceanos ou uma atmosfera densa.

Fontes e imagem

ESA — Mars Express views the most striking cloud on Mars (07/10/2026); ESA — New modelling of Mars’s most striking cloud (07/10/2026); Journal of Geophysical Research: Planets — An Extremely Elongated Cloud Over Arsia Mons Volcano on Mars: I. Life Cycle (2021); Nature Geoscience (2026), estudo sobre nucleação homogênea de gelo na nuvem AMEC.

Gostou de descobrir mais?

Voltar à revista →