Uma nova palavra começou a ganhar espaço nas buscas e nas notícias sobre obesidade e diabetes: retatrutida.
O interesse aumentou depois da divulgação, em 29 de setembro, dos resultados detalhados do estudo clínico de fase 3 TRIUMPH-2. O medicamento experimental apresentou reduções expressivas tanto no peso corporal quanto nos níveis de glicose de participantes com obesidade ou sobrepeso e diabetes tipo 2.
Os números ajudam a explicar a repercussão. Entre os participantes que receberam a dose semanal de 12 miligramas, a redução média do peso chegou a 20,8% em 80 semanas. Entre aqueles que iniciaram o estudo com índice de massa corporal igual ou superior a 35, a redução média chegou a 23,4%.
Mas talvez a característica cientificamente mais interessante da retatrutida esteja menos no número final da balança e mais na maneira como a molécula foi projetada.
Ela foi desenvolvida para atuar simultaneamente em três diferentes receptores hormonais: GIP, GLP-1 e glucagon. É por isso que a retatrutida é chamada de agonista triplo.
De um receptor para três
A semaglutida, princípio ativo de medicamentos como Ozempic e Wegovy, atua principalmente sobre o receptor de GLP-1, um hormônio envolvido em mecanismos relacionados à glicose, à saciedade e ao esvaziamento gástrico.
A tirzepatida acrescentou uma segunda via e atua sobre os receptores de GLP-1 e GIP.
A retatrutida avança para uma terceira: além de GIP e GLP-1, também ativa o receptor de glucagon. A presença do glucagon pode parecer contraditória à primeira vista. O hormônio costuma ser lembrado principalmente por sua capacidade de aumentar a disponibilidade de glicose no sangue quando necessário, mas sua atuação metabólica é mais ampla e também envolve mecanismos relacionados ao uso e ao gasto de energia.
A ideia não é simplesmente somar três medicamentos em um. Trata-se de projetar uma única molécula capaz de combinar diferentes sinais metabólicos de maneira controlada. Três receptores não significam três vezes mais efeito.
O que o estudo mostrou
O TRIUMPH-2 avaliou a retatrutida em adultos com diabetes tipo 2 e obesidade ou sobrepeso. Foram testadas três doses semanais: 4, 9 e 12 miligramas.
Depois de 80 semanas, as reduções médias de peso divulgadas pela Lilly foram de 12,7% com 4 mg, 19,1% com 9 mg e 20,8% com 12 mg. No grupo placebo, a redução média foi de aproximadamente 4%.
A hemoglobina glicada — ou A1C, indicador utilizado para acompanhar o controle médio da glicose — caiu em até 1,6 ponto percentual, e até 40% dos participantes atingiram A1C inferior a 5,7%.
Outro resultado chamou atenção: no grupo que recebeu 12 mg, mais da metade dos participantes deixou de preencher o critério de IMC utilizado para classificar obesidade ao final do período analisado.
O número de 20,8% precisa de contexto
É fácil transformar esse resultado em uma manchete como “nova caneta faz perder 20% do peso”. Mas essa frase deixa de fora quase tudo o que é necessário para interpretar corretamente um ensaio clínico.
20,8% é uma média. Ela foi obtida em uma população específica, utilizando uma dose determinada e depois de 80 semanas de acompanhamento. Isso não significa que todos os participantes perderam exatamente essa quantidade de peso, nem que o mesmo resultado possa ser automaticamente projetado para qualquer pessoa.
Ensaios clínicos trabalham com critérios de inclusão e exclusão, acompanhamento estruturado, protocolos de escalonamento de dose e condições que não são equivalentes à utilização de um medicamento no cotidiano depois de sua eventual aprovação.
E os efeitos adversos?
Eficácia é apenas uma parte da análise de um medicamento. Segurança e tolerabilidade também importam.
No TRIUMPH-2, os efeitos adversos relatados com maior frequência foram gastrointestinais, incluindo náusea e diarreia, em linha com o que já é observado em outras terapias que atuam sobre sistemas relacionados às incretinas.
A avaliação de segurança continua mesmo depois de um estudo de fase 3. É necessário considerar eventos menos frequentes, efeitos que podem surgir com uso prolongado, diferenças entre populações e o equilíbrio entre benefícios e riscos para cada indicação.
A retatrutida ainda não está à venda
Este talvez seja o ponto mais importante em meio à repercussão dos novos resultados.
A retatrutida não está aprovada para comercialização no Brasil nem em qualquer outro país.
A Anvisa publicou um alerta específico em julho de 2026 esclarecendo que o medicamento continua experimental. Isso, porém, não impediu que produtos apresentados como retatrutida começassem a circular irregularmente.
Em setembro, uma operação no Aeroporto Internacional do Galeão apreendeu 572 unidades identificadas como retatrutida, além de outros medicamentos e peptídeos sem registro.
Há uma distinção essencial: resultados legítimos de um ensaio clínico não tornam legítimos produtos vendidos informalmente usando o mesmo nome.
Mais do que uma corrida por números maiores
É tentador enxergar a evolução desses medicamentos como uma competição: um receptor, depois dois, agora três — acompanhados de porcentagens cada vez maiores de perda de peso.
Mas cientificamente a história é mais interessante. O que está acontecendo é uma tentativa cada vez mais sofisticada de modular simultaneamente diferentes sistemas envolvidos na regulação do metabolismo.
A retatrutida representa uma etapa dessa estratégia. Isso não significa que três alvos sejam necessariamente melhores do que dois para todas as pessoas, nem que o medicamento venha a substituir terapias existentes.
Por enquanto, o resultado permite uma conclusão mais contida — e cientificamente mais interessante — do que a ideia de uma “caneta milagrosa”: é possível desenvolver uma única molécula capaz de atuar simultaneamente sobre três importantes vias hormonais e produzir efeitos metabólicos expressivos.
O restante da história dependerá dos dados de longo prazo, das análises regulatórias e do que acontecer quando a retatrutida sair do ambiente controlado dos ensaios clínicos — caso venha a ser aprovada.
